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Revendedor

O carro elétrico vai acabar com os Postos de combustíveis?

Artigo escrito por Roberto James
Por Roberto James
Criado em 27/07/2021, atualizado em 27/07/2021

O que representa o carro elétrico na cabeça do consumidor

Existe uma grande expectativa sobre o carro elétrico como resolvedor de diversos problemas e no Brasil não é diferente. Este artigo busca discorrer sobre as escolhas dos consumidores e as motivações no processo de escolha do veículo de matriz elétrica e se isso está direcionado diretamente a questões ambientais ou financeiras aqui no Brasil.

Mais de 70% dos consumidores entrevistados, querem ou desejam um carro elétrico. Assunto da moda, muito comentado e muito divulgado na imprensa. O carro elétrico pode resolver os problemas de emissão de gases poluentes na atmosfera, reduzir os efeitos danosos que o petróleo causa na camada de ozônio e com isso existe uma expectativa muito grande da chegada desse tal carro. O consumidor tem alta expectativa, porém quando se trata de conhecer a fundo o carro elétrico a média dos entrevistados mostrou que o nível de conhecimento acerca deste veículo está numa média de quase metade dos que responderam que querem um carro elétrico. Sendo que no nível de conhecimento médio tem mais de 40% que acreditam ter um conhecimento acima da média sobre os veículos elétricos. 

Por que o consumidor quer tanto um carro em que seu conhecimento sobre ele é classificado como médio? Se perguntarmos sobre os carros a combustão o resultado não será tão diferente pois o consumidor vai ligar o questionamento à mecânica do automóvel em si. Isso demonstra que, exceto os apaixonados por veículos, o nível de conhecimento sobre veículos não é assim um diferencial tão importante no processo de escolha, visto que os modelos de CE (carro elétrico) são basicamente iguais aos de combustão por combustíveis líquidos.

Nesta pesquisa foram ouvidos 203 consumidores de vários estados do Brasil, com idades entre 18 e mais de 55 anos. A maioria dos respondentes foi da idade entre 26 e 55 anos totalizando mais de 76% dos entrevistados. Esse dado mostra que, independentemente da idade, o carro elétrico tem abertura nos desejos de consumo dos pesquisados. Um dado relevante é que não houve diferença significativa em relação à renda dos entrevistados, a maioria independente de idade e renda querem o carro elétrico. Também não houve diferença significativa em se tratando de localidade com apenas o estado do Rio Grande do Sul que diferiu da curva da maioria pró carro elétrico, onde 100% dos respondentes não querem ou possuem desejo de ter um CE. A questão que se busca responder é: Por que o consumidor quer tanto um CE e se existe uma percepção de economia por trás desse desejo, já confirmado na pesquisa realizada? 

Quando se trata de responder à pergunta do que motiva o consumidor a ter um carro elétrico, os respondentes que optaram pelo sim ficam divididos entre as questões optando pela resposta nessa sequência: (1) Não vai poluir com quase 30%, (2) Eletricidade ser mais barato que gasolina e (3) É o futuro, esta última se tratando de uma resposta genérica que não esboça uma particularidade resultante para se trabalhar. Um detalhe importante é que respostas que estão ligadas diretamente a economia e a percepção de gastar menos juntas se tornam o maior motivo de escolha do CE pelo consumidor. São elas: (1) Eletricidade ser mais barato que gasolina, (2) Não preciso mais ir ao posto de combustível e (3) Vou poder abastecer de casa juntas somaram o percentual de 42% o que demonstra uma expectativa de economia muito grande na relação de troca do carro a combustão pelo carro elétrico.

Abastecer um veículo é um consumo secundário, aquele em que o consumidor faz quase que de forma obrigada porque se ele não o fizer terá problemas e nesse caso não se trata de uma satisfação pessoal e imediata, mas sim um complemento de ação para completar outra tarefa e isso torna a ida ao posto algo perto de uma obrigação ou um martírio. O consumidor entende que ali não está consumindo e sim gastando dinheiro o que aumenta ainda mais o sentimento de insatisfação.

A simples perspectiva de se livrar dessa tarefa diária, semanal ou quinzenal de pagamento por algo que ele não toca, não degusta, não sente ou vê diretamente pode ser um dos impulsos que tornam a ideia do CE uma opção salvadora. Ficou claro na pesquisa que o consumidor tem a percepção que a energia elétrica é bem mais barata que a gasolina e em outra questão uma maioria, quase 70% dos respondentes optantes pelo CE, responderam que a economia gerada pela troca do combustível líquido compensaria os valores pagos a maior no CE.

Conhecendo a cadeia do petróleo, biocombustíveis e da geração de energia elétrica pode-se dizer claramente que o consumidor está redondamente enganado. Falta energia elétrica em diversos países e a grande maioria é gerada com emissão de gases poluentes. Aqui no Brasil mais de 80% da energia gerada vem de hidroelétricas, mas o país ainda não está livre dos apagões, não se cresce e não se tem aumentado a oferta de energia apesar dos investimentos em energia eólica e solar.

Quando a primeira conta de energia chegar o consumidor vai se dar conta que não se trata de uma troca tão vantajosa assim e nem se fala das questões ambientais que apesar de um bom número demonstrar interesse pelas questões de emissão de gases, ainda pairam sobre sua mente a ideia de que o CE é mais econômico e se o consumidor está economizando ele tem uma sensibilidade com o meio ambiente maior. No quadro 03 está o resultado do questionamento dos consumidores sobre o quanto estariam dispostos a pagar a mais por um CE. Ficou claro que mais de 30% não querem pagar um real a mais e que mais de 50% aceitariam pagar até 20% a mais por essa economia ambiental. Nota-se que mais de 80% dos optantes pelo CE têm grande expectativa de preços menores nos veículos elétricos.

Outro dado coletado que acrescenta a essa questão é que mais de 80% dos optantes pelo CE concordam em incentivos fiscais governamentais como forma de baratear os veículos e proporcionarem essa economia esperada. Isso demonstra evidente expectativa na questão econômica como principal gatilho de escolha.

O consumidor quer economizar e se isso puder ser feito de forma mais segura e mais limpa, ambientalmente falando, ele está dentro e vai lutar. A verdade é que, conhecendo a indústria em geral, assim como os gigantes do petróleo, fica difícil estimar que os CE se tornem massificados e substituam as frotas a combustão tão facilmente. Eles sabem que o consumidor pensa mais com o bolso e isso ainda será relevante nessas políticas. Quando se analisa a pesquisa pelos olhos dos que não querem ter um CE as motivações estão relacionadas, em grande parte, às questões financeiras e de incertezas no mercado futuro. Isso deixa claro que os fatores ligados à falta de conhecimento do que será preciso fazer com um CE, como será seu dia a dia, abastecimento, manutenção, troca de baterias etc. tendem a simplificar a escolha do consumidor.

O carro elétrico vai vingar ou não?

Já vingou, já existe, já roda pelo Brasil e pelo mundo. Não existem dúvidas a respeito disso. A questão agora é conseguir fazer ele entrar na linha de produção em grandes quantidades. Fazer com que a necessidade pelo CE seja tal que governos, montadoras, empresas e todos se mobilizem para o aumento da produção. Empresas de geração de energia têm feito corredores de abastecimento gratuito, shoppings, restaurantes e condomínios de escritórios têm colocado carregadores gratuitamente como forma de impulsionar essa alta de consumo. É assim que o mercado trabalha, se não tem demanda, crie-a.

O apelo ambiental é forte, mas é preciso ser honesto, no Brasil ele não pega tão fácil assim. Isso ficou claro na pesquisa. O consumidor brasileiro não está disposto a pagar mais de 20% na diferença entre o CE e os veículos a combustão tendo a percepção clara de economia, imaginem ter que custear tudo apenas com o apelo ambiental?

Essa reflexão é apenas com foco na percepção do consumidor. Sabe-se que as motivações de consumo passam em grande parte por decisões emocionais e nesse aspecto as causas nobres ambientais terão seu peso e devem ser consideradas e um grande exemplo disso foi a montadora americana Ford lançar o perfume de gasolina para CE, como forma de gerar aquela ligação com os veículos a combustão. Esse tipo de ação mostra claramente a ligação emocional na decisão e a tentativa de geração de demanda já explicitada nesse artigo. Então o que se questiona é em quanto tempo o consumidor brasileiro vai mudar de opinião e estará disposto a pagar mais caro por um produto que não agrida a natureza? Quanto de fato a renda do brasileiro pode proporcionar o processo de escolha baseado em fatores não ligados ao financeiro por sua totalidade? Quantas gerações terão que passar para completar esse ciclo?

São muitas questões e muitas hipóteses. O mercado é imenso e cabe muito carro elétrico junto com os de ciclo otto. Isso não se transforma de uma hora para outra. É preciso mudança cultural. A questão que se revela agora é: Por que EUA, Europa e China estão investindo, exigindo, incentivando CE e proibindo a fabricação de veículos a combustão?

Excelente ponto.

A Europa consome 70% do petróleo e 65% do gás natural exportado pela Rússia. EUA e China são países gigantescos que dependem muito da oferta internacional e algum dia o petróleo deve se acabar, se deixar para o último momento pode não ser a melhor das hipóteses. Esses são os países que mais incentivam e precisam que as montadoras parem de fabricar o carro a combustão para entrar em linha de produção do CE e assim conseguir baratear e então eles poderão, dentro de alguns anos, ficar livres da dependência do petróleo.

Não existe almoço grátis. O interesse maior é não depender de países hostis, não depender eternamente de uma matriz energética que tem data de validade e está dando sinais de esgotamento. Os países precisam focar em energias renováveis, não só pelas questões ambientais, mas pela questão da sobrevivência.

O futuro dos Postos revendedores depende do carro elétrico?

Claro que não. Não se pode simplesmente achar que a demanda por combustíveis líquidos tende a sumir. Essa possível migração para o CE deve acontecer de forma lenta, principalmente em países com grandes reservas de petróleo e com matrizes renováveis como o etanol. Existe toda uma indústria ao redor dos motores otto e simplesmente sumir do mapa da noite para o dia seria jogar milhares de pessoas no desemprego. O futuro também não poupará sua entrada em troca de empregos. Isso vai acontecer, sem dúvidas, resta saber como e quando você irá reagir por que a mudança já está ocorrendo

As mudanças tendem a ser mais severas em outros aspectos como meios de pagamento e experiência de compra, assuntos já abordados em artigos anteriores. O revendedor precisa estar antenado com essas alterações e buscar melhorar o nível de competitividade aumentando o mix ofertado, como por exemplo ter produtos exclusivos, criar um relacionamento de marca com seus clientes, se conectar e entregar mais que o esperado. Isso demanda tempo, planejamento e engajamento. A tendência dos postos de milhão de litros é de margens apertadíssimas e receita complementar até chegar um dia em que os postos de combustíveis também venderão combustíveis. Parece bizarro, mas outros segmentos também já passaram por essa transformação.

O Brasil tem tempo de se preparar, mas isso não quer dizer virar as costas e esperar. O revendedor deve começar hoje a planejar e mudar o rumo em direção às inovações mercadológicas, se não sabe como fazê-lo, procure quem sabe.


Se tiver dúvidas, convido o leitor a conhecer o CANAL DO ERRJOTA no Youtube e no Instagram @canaldoerrejota para explorar este e outros temas relacionados a logística, comportamento e consumo.

Roberto James

Especialista em comportamento do consumidor

CANAL DO ERREJOTA


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