A gasolina vendida no mercado brasileiro continua a ser negociada com valores superiores aos preços de paridade de importação (PPI), a referência internacional, com levantamentos recentes apontando uma defasagem que varia entre 8% e 12%. Essa situação, observada em meados de outubro de 2025, tem gerado debates sobre a política de preços dos combustíveis no país e pressões sobre os repasses aos consumidores.
Segundo dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) divulgados em meados de outubro de 2025, a gasolina no Brasil está, em média, 8% mais cara que no exterior. Embora essa diferença tenha recuado de 10% na semana anterior, impulsionada pela queda das cotações internacionais e pela estabilidade do câmbio em R$ 5,35 por dólar, o cenário é mais complexo. O Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) indicou, com base em dados de setembro de 2025, uma defasagem ainda maior, de 12% acima do PPI nas refinarias da Petrobras, configurando a maior diferença registrada no ano.
Essa sobretaxa da gasolina representa um custo adicional médio de aproximadamente R$ 0,23 por litro em nível nacional, com variações regionais entre R$ 0,17 e R$ 0,31 por litro. Em contraste, o diesel é comercializado 4% abaixo do preço internacional, com uma diferença média de R$ 0,14 por litro, evidenciando a complexidade da precificação no mercado doméstico.
As principais refinadoras do país, Petrobras e Acelen, têm mantido seus preços congelados desde junho de 2025 para a gasolina, e desde maio para o diesel. A última redução da gasolina pela Petrobras foi de 5,6% em junho. Essa política de preços, adotada pela Petrobras em maio de 2023 sob a presidência de Magda Chambriard (que assumiu em maio de 2024), busca “abrasileirar” os valores, considerando custos internos de produção e logística para mitigar a volatilidade nas bombas, afastando-se do alinhamento automático com as cotações internacionais.
Apesar da defasagem nos preços da gasolina, a Abicom ressalta que as “janelas de importação” permaneceram abertas por mais de um mês (39 a 42 dias), sugerindo que a importação do produto ainda é financeiramente vantajosa em relação aos preços domésticos. Este fato tem provocado críticas dos importadores, que consideram a política atual um desestímulo à concorrência e uma fonte de insegurança para investimentos privados no mercado nacional de combustíveis.
Analistas divergem sobre as causas da situação. Alguns atribuem o cenário a um câmbio elevado e à desvalorização do petróleo no mercado externo, com o barril de Brent negociado acima de US$ 66. Contudo, o Ineep argumenta que, mesmo com a queda do valor do petróleo internacional e a valorização do real, as reduções de custos não foram integralmente repassadas, indicando um possível espaço para novas diminuições nos preços sem impactar significativamente os resultados operacionais da Petrobras.
Diante da persistência de preços elevados para o consumidor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem cobrado uma fiscalização mais rigorosa dos órgãos reguladores, como a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Procons e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O presidente criticou a ausência de repasse das reduções promovidas pela Petrobras aos consumidores finais. Na semana de 5 a 11 de outubro, o preço médio nacional da gasolina registrado pela Petrobras foi de R$ 6,21 por litro.
O Cenário para Revendedores e Donos de Postos
Para você, proprietário ou gestor de posto de combustíveis, essa persistente diferença entre o preço da gasolina nacional e o PPI exige atenção constante. O fato de a gasolina permanecer mais cara internamente, mesmo com “janelas de importação” abertas, indica que o custo de aquisição do produto pode estar acima do que seria praticado em um mercado totalmente alinhado à paridade internacional. Isso impacta diretamente suas margens de lucro e a competição local, pois a capacidade de repassar esses custos ao consumidor final é limitada pela concorrência e pelo poder de compra.
A política de “abrasileiramento” da Petrobras, embora busque estabilizar os preços na bomba, pode gerar uma imprevisibilidade para o seu planejamento de compras, já que os reajustes não seguem rigidamente as cotações globais. Além disso, a cobrança do Presidente Lula por uma fiscalização mais efetiva dos órgãos reguladores, como ANP e Procons, significa que você, revendedor, pode enfrentar um escrutínio maior sobre a composição dos seus preços de venda. Manter a transparência e entender a dinâmica do mercado será crucial para navegar nesse ambiente.
A política de “abrasileiramento” dos preços de combustíveis deve permanecer como um ponto central de tensão no mercado. O debate sobre a autonomia da Petrobras na definição de seus preços e a necessidade de um maior alinhamento com as cotações internacionais provavelmente persistirá. A pressão governamental e das entidades de importadores pode levar a revisões futuras da política de preços ou a um escrutínio mais intenso sobre as margens praticadas ao longo da cadeia de valor dos combustíveis. O comportamento do câmbio e das cotações internacionais do petróleo continuarão sendo fatores cruciais para a dinâmica dos preços no Brasil nos próximos meses.
