A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, manifestou preocupação com a prática de importadores privados de combustíveis que estariam redirecionando navios carregados de diesel, originalmente destinados ao Brasil, para outros mercados internacionais mais rentáveis. O alerta, emitido durante um evento no Rio de Janeiro, destaca o aumento da incerteza sobre o fornecimento nacional do combustível. A situação é agravada pelo conflito no Irã e a consequente escassez global, enquanto a inteligência da estatal monitorou a alteração de rotas de pelo menos seis embarcações de terceiros, algumas já próximas de portos brasileiros.
A principal motivação para o desvio, conforme explicado pela executiva, reside na busca por preços mais elevados em outros países. No dia da declaração, o diesel comercializado pelas refinarias da Petrobras apresentava uma defasagem de R$ 2,15 por litro em relação à paridade de importação. A gasolina, por sua vez, estava R$ 1,33 por litro mais barata. Essa diferença substancial de preços torna a importação para o mercado brasileiro menos atrativa para o setor privado, conforme apontado por entidades do segmento de combustíveis.
A defasagem de preços tem sido um ponto de tensão crescente. Apesar de a Petrobras ter promovido um reajuste de 11,6% no preço do diesel em 13 de março, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) indicou que a defasagem em relação ao mercado internacional ainda era de aproximadamente 60% para o diesel e 50% para a gasolina. A Abicom calculou que, para se alinhar aos valores externos, a Petrobras precisaria elevar o preço do diesel em R$ 2,18 por litro e o da gasolina em R$ 1,26 por litro.
Diante do cenário, entidades representativas do setor, como Abicom, IBP e Brasilcom, enviaram uma comunicação ao governo federal solicitando um aumento nos preços do diesel que viabilizasse as importações, classificando o reajuste da Petrobras como “parcial”. O Sindicom, que representa grandes distribuidoras, também cobrou a continuidade dos leilões de volumes adicionais pela Petrobras, uma medida considerada crucial para garantir o abastecimento, especialmente frente à expectativa de aumento da demanda em abril.
A Petrobras, por sua vez, afirma estar empenhada em maximizar a produção de suas refinarias, inclusive com o adiamento de paradas de manutenção programadas. Contudo, a presidente da estatal reconheceu as limitações na capacidade de importação da companhia e mencionou que a decisão de não deixar a Petrobras sozinha no mercado de importação trouxe uma dinâmica que, em momentos de crise, exacerba fragilidades. A empresa também informou o cancelamento de leilões previstos para reavaliar o cenário antes de disponibilizar novos volumes.
Em um esforço para mitigar os impactos, o governo federal já havia suspendido as alíquotas de PIS/Cofins sobre a importação e comercialização do diesel, medida que representou um alívio de R$ 0,32 por litro. Adicionalmente, foi anunciada uma medida provisória com subvenção ao diesel para produtores e importadores, e o governo propôs aos estados a zeragem temporária do ICMS sobre a importação de diesel, com compensação de 50% da perda de arrecadação. A Abicom, em contrapartida, defende que o redirecionamento de cargas é uma dinâmica de mercado internacional e não deve ser tratado como irregularidade, reiterando a liberdade do mercado nacional.
Impacto para donos de postos de combustíveis
A dependência do Brasil da importação de cerca de 30% do diesel consumido torna o mercado sensível às flutuações e dinâmicas internacionais, bem como às políticas de preços da Petrobras. A diminuição das importações privadas pode levar a uma maior concentração da oferta nas mãos da estatal, potencialmente afetando a competitividade e a diversidade de fontes de suprimento.
A principal preocupação reside na possibilidade de instabilidade no fornecimento, que poderia se manifestar em desabastecimento localizado ou em maior volatilidade nos preços de venda na bomba. Para uma gestão eficaz do negócio, torna-se crucial o monitoramento constante dos desdobramentos do mercado, das políticas governamentais e das decisões da Petrobras. A compreensão dessas dinâmicas é fundamental para o planejamento de estoque, a estratégia de preços e a manutenção da competitividade em um ambiente de negócios que exige adaptação rápida.
O cenário atual aponta para uma continuidade das tensões entre a política de preços da Petrobras e a volatilidade do mercado internacional. As medidas emergenciais adotadas pelo governo buscam estabilizar o fornecimento e os preços, mas o debate sobre a defasagem de preços e a viabilidade econômica das importações privadas deverá se intensificar. O setor privado, por meio de suas associações, continuará a pressionar por maior alinhamento dos preços domésticos com os valores internacionais.
Para o futuro, espera-se que o governo federal mantenha a busca por soluções que garantam a regularidade do abastecimento, seja por meio de intervenções diretas, como subsídios, ou através de negociações com os estados sobre o ICMS. As próximas semanas serão determinantes para observar a eficácia das medidas adotadas e as possíveis reações do mercado, que aguarda por decisões que possam restabelecer a estabilidade ou, alternativamente, agravar a incerteza sobre a oferta de combustíveis no país.