A DEMONIZAÇÃO DO VAREJO DE ENERGIA NO BRASIL
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A demonização do varejo de energia no Brasil

Artigo escrito por Roberto James
Por Roberto James
Criado em 24/08/2021, atualizado em 30/08/2021

O varejo de energia no Brasil

Sempre à margem das relações comerciais comuns, o varejo de energia no Brasil teve um crescimento forte nos últimos anos, porém cresceu disperso, o que contribui para uma divisão grande entre os operadores e assim dificulta a luta por políticas que atendam o mercado e possam dar sobrevida ao segmento. Altos impostos, falta ou demora em regulações, fiscalizações falhas, sempre atrapalharam o setor. Talvez o fato da substituição tributária, ou seja, o recolhimento de impostos na fonte, tenha ajudado a jogar o varejo de venda de energia na margem, longe dos holofotes. Quando se fala de varejo de energia está se falando de venda de combustíveis, gás de cozinha e energia elétrica

Todas as políticas voltadas para essa área somente são amplamente discutidas quando o calo aperta forte. Desde decisões equivocadas de governos que passaram, como a falta de conhecimento técnico do atual governo, revelam que o varejo de energia está longe de ser modificado a ponto de se tornar um varejo tradicional. Não precisa ser um pesquisador para saber que no Brasil, os maiores geradores de empregos são as micro e pequenas empresas. A grande maioria sem qualquer benefício governamental. Estes são os que mais sofrem por não ter representatividade.

Um desavisado pode dizer: As micro e pequenas empresas têm condições diferenciadas de impostos. Claro que sim, se trabalha no Brasil com uma das maiores cargas tributárias mundiais e com uma das mais injustas pela falta de retorno. É muito fácil diminuir a cobrança e vender como benefício? Não! As micros e pequenas empresas, e agora acrescentando as médias empresas, não tem apoio governamental e geram a grande maioria dos empregos e rendas desse país.

É nítida a grande evolução desde a venda de gás de cozinha por data fixa na sua rua até a entrega na sua casa em poucos minutos. A evolução nos postos de combustíveis que usam de apps de fidelidade, desconto, diversas formas de pagamento e a entrega de diversos serviços trouxe um alto nível de comodidade ao consumidor. O que falar da energia elétrica que teve um salto de qualidade de atendimento com as privatizações. Esse mercado deve muito ao varejo que trouxe para essas empresas antigas uma mudança comportamental exigida pelo consumidor cada dia mais exigente.

É importante analisar o mercado como uma grande cadeia de suprimentos e entender seus pontos e gargalos antes de tomar medidas que impactem direta ou indiretamente. Isso é essencial para que as políticas públicas possam ter efeito direto para o cidadão brasileiro.

Operadores logísticos e sua participação no mercado  

O gás de cozinha deixou de ser vendido em datas específicas, obrigando o consumidor a ter um botijão reserva em casa para caso de falta. Mudando para o sistema de entregas rápidas, na comodidade de sua casa com o entregador instalando o botijão para você, auxiliando a população mais vulnerável e mais envelhecida. Isso tudo foi possível pelos operadores logísticos, ou como pode-se chamar distribuidores locais. Em resumo, uma empresa compra em grande quantidade das empresas envasadoras e estas compram diretamente das refinarias. Trata-se de um processo complexo, regulado por diversas leis e fiscalizado por diversos órgãos para que a segurança dos funcionários, clientes e vizinhos seja mantida dentro das normas e não aconteçam acidentes.

Essa cadeia tem uma estrutura altamente regulada e fiscalizada que impacta diretamente nos custos do produto. É necessário que a empresa tenha um grande fluxo de vendas para que possa acompanhar os preços de mercado, disputar espaço com os operadores ilegais e ainda obter lucro. Isso mesmo, se alguém ainda não sabe o objetivo de uma empresa é o lucro. Parece feio, não é? Mas é do lucro que partem novos investimentos e a circulação do capital que traz mais possibilidades para o mercado.

Para este governo, que se diz liberal, existe uma preocupação com o lucro dessas empresas. É lícito e justo ao governo ter preocupações com o mercado na forma de proteger o cidadão que é seu único e principal cliente. O problema está numa cadeia logística mal desenhada, ineficiente e atrasada, sem contar que há um único fornecedor de produto para todo o Brasil. Realmente é difícil entender como é possível ter concorrência na ponta da cadeia quando todos só conseguem comprar de um único fornecedor. Eis uma questão importante para ser debatida.

Quando o presidente da república vai à frente das câmeras e diz que a solução para baratear o preço do botijão de gás é que ao invés de usar toda essa logística de comodidade, criada através da evolução do processo de compra e exigência do consumidor, deve-se voltar aos anos 80 para comprar o gás de cozinha direto da distribuidora, numa tentativa sem fundamento técnico algum, como se as soluções para os problemas brasileiros fossem resolvidas com mágica ou apenas ignorando-os. Logo, com essa linha de raciocínio o problema estará longe de ser resolvido.

A culpa não é do empresário da distribuição ou do varejo

O modelo logístico de distribuição de combustíveis líquidos e do GLP (gás de cozinha) foi desenhado para não ter concorrentes. Tudo foi feito de forma que a Petróleo Brasil S/A, mais conhecida como PETROBRAS entregasse os produtos a todos os brasileiros independente de diferenças, preços e distâncias. Com a evolução do mercado e o crescimento do varejo nacional tendo como diferencial o processo de modernização das relações comerciais, que se deu de trás para a frente, tem-se a situação em que o país se encontra hoje. Houve uma potencialização da ponta que forçou os empresários a se adaptarem e se afastarem do atraso que ocorre no início da cadeia.

Empresas começaram a investir em comodidade, as distâncias se tornaram um problema para as famílias nesse processo de consumo. O trânsito e o aumento da carga horária de trabalho impuseram ao mercado uma adaptação para atender o cliente com facilidade e conveniência. Isso tem um custo. O dia a dia: levar crianças à escola, trabalhar, pegar crianças, supermercado, remédios, estudos, correria, – e agora? o gás acabou o que faço? Sair de casa se deslocando até uma distribuidora de gás para comprá-lo mais barato? E a conveniência, onde fica?

A discussão centrada em baixar preços quando temos uma carga tributária monstra, quando temos um processo de ineficiência logística secular, quando grandes monopólios controlam toda, senão a grande parte da produção servindo de válvula de controle governamental sobre o mercado, é um desafio grande. São muitos e diversos os fatores que impactam nos preços ao consumidor e qualquer ação no sentido de resolver o problema demandará um tempo para que o ajuste seja efetivo. Esse é o grande desafio brasileiro, temos eleições a cada dois anos e nenhum político está disposto a esperar tanto para mudanças tão profundas ou até iniciar o que possivelmente outro, até mesmo um adversário, possa levar os louros. Com isso passa o tempo, passa governo, falta dinheiro, sobra ineficiência e nada é feito.

Vive-se num país que está sempre no pronto socorro levando ponto, recebendo analgésico, mas a cirurgia profunda que pode resolver o problema e acabar com o mal é sempre adiada, seja sob qualquer pretexto. O governo pode até protelar uma ação dessas, agora propor remediações esdrúxulas, sem qualquer conhecimento de causa, é simplesmente inaceitável nos dias de hoje.

Como resolver o problema do preço?

A cadeia de suprimentos tem que ser repensada e uma decisão precisa ser tomada: ou deixa a iniciativa privada fazer ou faz o estado. Os dois juntos e misturados, como acontece com o caso da Petrobrás, criam uma situação contraditória. A Petrobrás é uma empresa de capital misto, a união detém a maior parte das ações sendo a mandatária maior da empresa. Sendo assim ainda tem acionistas que investiram dinheiro nela comprando suas ações e querem a maior rentabilidade possível, até aí nada de errado. O problema é que não se consegue equalizar o fator social com os ganhos pretendidos pelos acionistas.

Como fazer para dar lucro e pedir aos investidores que renunciem as possibilidades de ganhos maiores em prol do consumidor brasileiro? Não faz sentido. Uma solução seria o governo sair de vez da Petrobras e abrir o caminho para a entrada de mais petroleiras que encarassem o desafio de aumentar a capacidade do refino brasileiro criando um ambiente de alta concorrência. A dificuldade dessa possibilidade é que essa opção era para ter sido feita há muitos anos quando a oferta de IPO da Petrobrás foi feita.

A segunda solução seria o estado comprar de volta as ações e mudar a política de ganhos atentando ao mercado interno e fazendo com que o abastecimento pudesse ser menos volátil e os ganhos de forma ordenada não quebraria a Petrobrás como também não rasgaria o bolso do brasileiro. O maior desafio desse ponto é o fisiologismo da política brasileira. Um dificultador que só seria modificado com mudança de cultura.

Há ainda muitas possibilidades, mas o importante é deixar claro que o modelo de negócio capitalista em que empresas prestam serviços customizados e lucram fazendo isso com a mínima intervenção do estado, não é o problema que encarece os preços ao consumidor. O governo tem muito dever de casa antes de propor mudanças. O mercado na ponta já é muito competitivo e regulado pelas agências e cobrado pelo consumidor. O que precisa ser mudado depende sim do governo de forma técnica e responsável sem prejudicar o médio, pequeno e microempresário.


Se tiver dúvidas, convido o leitor a conhecer o CANAL DO ERRJOTA no Youtube e no Instagram @canaldoerrejota para explorar este e outros temas relacionados a logística, comportamento e consumo.

Roberto James

Especialista em comportamento do consumidor

CANAL DO ERREJOTA


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