gasolina formulada
Colunistas, Postos de Combustíveis

Gasolina formulada é ruim?

Artigo escrito por Marcelo Gauto
Por Marcelo Gauto
Criado em 21/07/2020, atualizado em 21/07/2020

Com alguma frequência recebo questionamentos sobre a formulação de gasolina. Uma dúvida comum, entre revendedores e consumidores, é se gasolina “formulada” é de pior qualidade do que a “refinada”. Neste artigo, falo sobre o assunto, com uma breve explanação sobre como a gasolina produzida tanto no Brasil como mundo afora. Afinal, gasolina formulada é ruim?

O que é gasolina?

É preciso saber que a gasolina automotiva é constituída por hidrocarbonetos variados, em sua maioria entre 4 e 12 átomos de carbono, com faixa de ebulição entre 30 e 220 °C. Essa corrente de hidrocarbonetos engloba o que é mundialmente conhecido como nafta. No Uruguai, por exemplo, se você quiser abastecer seu carro com gasolina, pedirá por nafta. As especificações técnicas variam em detalhes de um país para outro. Nos EUA, por exemplo, o ponto final de ebulição da gasolina é de 225 °C, enquanto no Brasil é de 215 °C. Na Europa, o teor de enxofre máximo é de 10 partes por milhão (ppm), sendo que por aqui a gasolina tem até 50 ppm, dita gasolina S-50.

Leia também: Gasolina “made in Brazil”

Como obtemos a gasolina?

Você deve imaginar que é a partir do refino do petróleo que obtemos as moléculas que compõem a gasolina, mas uma parcela dela vem também das unidades de processamento de gás natural (UPGN), da fração de líquidos de gás natural (LGN), e das centrais petroquímicas, como subproduto de processo. O que nós temos, em última análise, são diversas correntes de naftas que, misturadas, compõem um combustível apto a se queimar nos motores de ciclo Otto, denominado gasolina A. Nas distribuidoras, ocorre a adição de etanol anidro, compondo a conhecida gasolina comum. A imagem abaixo ilustra, de forma esquemática, como se obtém a gasolina de modo geral.

Sabendo disso, então, em tese, toda e qualquer gasolina é dita formulada, seja numa refinaria ou fora dela, pela mistura de variadas correntes de nafta e outros hidrocarbonetos. Se todas as especificações técnicas contidas na Resolução ANP 807/2020 forem respeitadas, pouco importa onde a gasolina foi formulada, se dentro de uma refinaria ou fora dela. A gasolina “refinada” é também “formulada”. Ficou claro?

A maior parte da gasolina A (sem etanol) comercializada no Brasil, é formulada nas refinarias (pouco mais de 75%), conforme pode ser observado na próxima imagem. Historicamente, de 10 a 20% da gasolina é importada e menos de 5% costuma ser formulada nas centrais petroquímicas (BA, SP e RS) ou outros formuladores no país. Em 2019, por exemplo, somente a COPAPE (Produtos de Petróleo LTDA), em SP, comprou correntes de naftas para formular de forma independente gasolina A (0,3% do mercado).

De onde então saiu o estigma de que gasolina formulada é ruim? Provavelmente, de formulações malfeitas, contaminações ou adulterações, o que leva a um combustível fora de especificação. A mistura de hidrocarbonetos para formular gasolina é complexa, a adição em excesso de uma nafta mais leve ou pesada pode comprometer o resultado final do combustível. Obviamente, este tipo de combustível não especificado precisa ser corrigido antes de ir para distribuição e revenda.

Contaminações ao longo da cadeia a jusante do formulador, na transferência e estocagem, também podem ocorrer. Dutos, tanques e caminhões que não sejam exclusivamente dedicados para gasolina, que tenham carregado algum outro solvente ou óleo, por exemplo, podem alterar a composição do combustível, tornando-o impróprio para uso.

Um terceiro motivo, muito comum infelizmente, é a adulteração proposital da gasolina, a partir da adição de solventes ou até mesmo excesso de etanol, prática que inclusive constitui crime se comprovada. A adulteração de combustíveis deve ser combatida e denunciada em caso de suspeita, pois além de danos ao consumidor, gera concorrência injusta entre os agentes de mercado.

Leia também: Gasolina com densidade baixa, o que fazer?

Considerações finais

Conforme discutido ao longo do artigo, toda gasolina é considerada formulada, com correntes de hidrocarbonetos provenientes do refino do petróleo, do gás natural ou das centrais petroquímicas do Brasil ou do exterior (parcela importada). Se o produto atender às exigências descritas na RANP 807/2020, o local de formulação não importa. Assim, gasolina, quando bem formulada, é da mais alta qualidade.

O revendedor deve ficar atento a alterações de cor ou odor quando diferentes das usuais, ainda que isso, por si só, não configure que a gasolina esteja fora de especificação, uma vez que não existe controle para estes parâmetros na legislação (a gasolina automotiva só não pode ser azul, que é de uso exclusivo da gasolina de aviação). Teor de etanol acima do limite especificado é também facilmente detectável por teste em proveta.

Os feedbacks por parte do consumidor são igualmente importantes, relatos de maior consumo de combustível, entupimento de filtros, entre outros problemas mais graves, são sinalizadores de problemas com o combustível. Em caso de dúvidas sobre a origem da formulação ou qualidade da gasolina recebida, o assessor comercial é o principal caminho para dirimi-las, bem como o laudo técnico fornecido pelo formulador.

Marcelo Gauto é Químico, Educador, autor de livros técnicos na área da Química, Especialista em Petróleo, Gás e Energia.
https://www.linkedin.com/in/quimicogauto/


Ao se cadastrar você aceita receber os conteúdos do ClubPetro e compreende que pode se descadastrar a qualquer momento.

Posto de combustíveis