A Maersk, líder global em transporte marítimo, está acelerando seus esforços para a descarbonização de sua frota, com o etanol emergindo como uma alternativa promissora de combustível limpo. O Porto de Suape, em Pernambuco, foi posicionado como um ponto estratégico para essa transição, com planos para se tornar um hub regional de abastecimento de biocombustíveis. O projeto foi detalhado em 26 de janeiro de 2026, com testes em andamento desde o final de 2025, visando a utilização do biocombustível em suas embarcações para cumprir ambiciosas metas climáticas.
A iniciativa da Maersk faz parte de uma estratégia mais ampla para alcançar emissões líquidas zero até 2040 no transporte marítimo, setor responsável por aproximadamente 3% das emissões globais de Gases de Efeito Estufa (GEE). Enquanto o metanol verde foi uma opção inicial, o etanol está sendo amplamente testado pela sua viabilidade e potencial de uso global.
Os primeiros testes, realizados entre outubro e novembro de 2025, demonstraram o sucesso da utilização de uma mistura de 10% de etanol e 90% de e-metanol a bordo do Laura Maersk, o primeiro navio porta-contêineres bicombustível do mundo. Diante dos resultados positivos, a companhia avançou para a etapa seguinte em 8 de dezembro de 2025, testando uma mistura de 50% de etanol e 50% de metanol (E50). A Maersk já planeja a realização de testes com 100% de etanol, o que representaria um avanço significativo para a aplicação do biocombustível.
Segundo Emma Mazhari, Head de Mercados de Energia da Maersk, o etanol apresenta vantagens consideráveis, como um histórico comprovado, um mercado já estabelecido e uma infraestrutura existente. Essas características o tornam um caminho adicional valioso para a descarbonização da frota marítima.
A adoção do etanol como combustível marítimo abre um vasto mercado para países produtores, especialmente o Brasil e os Estados Unidos, que juntos respondem por 80% da oferta global. Estimativas apontam que, se o etanol alcançar 10% do consumo mundial de combustível marítimo, a demanda anual poderia atingir cerca de 50 milhões de toneladas. Esse volume ultrapassaria a produção brasileira atual de aproximadamente 37 milhões de toneladas, impulsionando a expansão da produção nacional e posicionando portos como Santos e Suape como importantes hubs de abastecimento e exportação para a navegação internacional.
A Maersk prevê que sua frota conte com 19 navios bicombustíveis até o final de 2025, com a meta de expandir esse número para 25 embarcações movidas a biocombustíveis até o final de 2026. A empresa também firmou uma declaração conjunta com outros players do setor, incluindo a Everllance e importantes produtores brasileiros de etanol (Inpasa, FS, Raízen, Atvos e Copersucar), para fomentar a avaliação técnica e regulatória aprofundada do etanol pela Organização Marítima Internacional (IMO).
Para o mercado de combustíveis brasileiro, especialmente para os revendedores e proprietários de postos, o avanço do etanol como combustível marítimo sinaliza uma tendência importante. A projeção de uma demanda internacional que pode superar a produção nacional atual – considerando que o etanol anidro utilizado nos navios é o mesmo tipo misturado à gasolina vendida nos postos – pode gerar impactos. Esse cenário levanta discussões sobre a pressão na oferta e nos preços do etanol no mercado interno, além de reforçar a relevância estratégica do biocombustível na matriz energética nacional. É um indicativo de que a expansão da produção se tornará ainda mais crucial para atender tanto o mercado doméstico quanto essa nova e robusta demanda global.
Com a Maersk planejando futuros testes com 100% de etanol e buscando a validação regulatória global pela IMO, o Brasil tem a oportunidade de se consolidar como um líder no fornecimento de combustíveis limpos para o transporte marítimo. Para concretizar esse potencial, será essencial que a indústria sucroenergética nacional acelere a expansão de sua capacidade produtiva e que sejam realizados investimentos significativos em infraestrutura portuária, como em Suape e Santos, garantindo a logística necessária para abastecimento e exportação do biocombustível em larga escala.
