A Raízen, uma das principais empresas do setor sucroenergético e de distribuição de combustíveis no Brasil, encerrou o terceiro trimestre da safra 2025/26 (outubro a dezembro de 2025) com um prejuízo líquido alarmante de R$ 15,6 bilhões. Além disso, sua dívida líquida atingiu R$ 55,3 bilhões, representando um aumento significativo. Este cenário desafiador, divulgado em fevereiro de 2026, é resultado de uma baixa contábil expressiva, piora operacional e impactos macroeconômicos e climáticos, levando a companhia a buscar opções estratégicas para fortalecer sua liquidez.
O prejuízo líquido reverte um cenário de lucro anterior e agrava perdas, sendo majoritariamente impulsionado por uma baixa contábil não recorrente de R$ 11,1 bilhões. Esta quantia inclui provisões para ativos não realizáveis, como a saída da rede Oxxo, somada a R$ 4,5 bilhões atribuídos à queda no desempenho operacional dos segmentos de açúcar e etanol. A dívida líquida da empresa cresceu 43,4% em relação ao ano-safra anterior, chegando a R$ 55,3 bilhões e elevando a alavancagem financeira (relação dívida líquida/Ebitda) para 5,3 vezes, um patamar considerado preocupante pelo mercado.
Os indicadores operacionais também refletem a dificuldade. A receita operacional líquida da Raízen apresentou recuo de 9,7%, somando R$ 60,4 bilhões no trimestre. O Ebitda ajustado caiu 3,3%, para R$ 3,15 bilhões, enquanto o Ebitda não ajustado ficou negativo em R$ 4,4 bilhões. Essa performance é reflexo, em grande parte, do menor desempenho do segmento de Etanol, Açúcar e Bioenergia (EAB), impactado pela redução dos volumes de etanol comercializados, pela queda dos preços do açúcar e pela diminuição dos ganhos em contratos de energia. Fatores externos agravaram a situação, como um ambiente macroeconômico adverso e severos impactos climáticos, incluindo secas, queimadas e geadas que afetaram diretamente a produtividade agrícola e a qualidade da cana-de-açúcar.
Houve, contudo, uma compensação parcial desses efeitos negativos. A distribuição de combustíveis no Brasil registrou melhor desempenho em volumes e margens, e as margens na Argentina se recuperaram após a modernização da refinaria, além de ganhos de eficiência decorrentes de uma revisão organizacional. Importante mencionar que parte do aumento da dívida bruta, que atingiu R$ 70 bilhões, deve-se à decisão da Raízen de substituir operações de “risco sacado” por dívidas convencionais de capital de giro, uma estratégia visando reduzir custos de longo prazo.
Diante do cenário de endividamento e resultados desfavoráveis, a Raízen confirmou a contratação de assessores financeiros e legais, como Moelis, White & Case, Pinheiro Neto Advogados e Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, para diagnosticar e propor opções estratégicas. O objetivo é fortalecer a liquidez da companhia e otimizar sua estrutura de capital. O mercado já especula sobre a necessidade de renegociação de dívidas com credores, uma possível capitalização da ordem de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão, e até a venda de ativos, como suas operações na Argentina. Há também um impasse entre os controladores, Cosan e Shell, sobre a liderança de um eventual aporte de capital.
Para o mercado de combustíveis, os resultados da Raízen merecem atenção. Embora a empresa enfrente desafios em seus segmentos de açúcar e etanol, seu braço de distribuição de combustíveis no Brasil apresentou um desempenho resiliente, com volumes e margens em recuperação, o que é um sinal positivo para a continuidade do abastecimento e da dinâmica comercial. No entanto, a situação geral da gigante sucroenergética pode gerar cautela entre investidores e credores em todo o setor de distribuição, impactando a disponibilidade e o custo de capital para futuras expansões ou novos empreendimentos. A saída da rede Oxxo já é um movimento de reestruturação que mostra a busca por otimização do portfólio. É fundamental que você acompanhe os desdobramentos, pois a estratégia de desalavancagem da Raízen pode influenciar o panorama competitivo e a oferta de produtos e serviços no segmento.
Em síntese, a Raízen atravessa um período crítico que exigirá uma reestruturação financeira complexa e multifacetada. Os próximos passos incluem intensas negociações com credores e a busca por soluções que possam envolver desde a capitalização da empresa até a venda estratégica de ativos. A forma como os controladores, Cosan e Shell, resolverão o impasse sobre o aporte de capital e a capacidade da companhia de otimizar seu portfólio serão decisivos para sua trajetória futura e para a confiança do mercado no setor. Este cenário destaca a importância da disciplina financeira e da busca contínua por eficiência para todas as empresas do segmento.
