Durante uma fala recente sobre a COP30, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, voltou a reforçar que o Brasil precisa “colocar o dedo na ferida” da crise climática, cobrando mais rapidez e rigor na transição energética.
Mas por trás desse discurso, surge uma preocupação crescente: as políticas ambientais vêm sendo desenhadas sem considerar o impacto direto sobre o setor que mais sustenta o transporte, o abastecimento e a economia real do país, o de combustíveis.
Nos últimos anos, a pauta ambiental ganhou força, e isso é inegavelmente positivo. O problema está em como essa agenda vem sendo conduzida. Ao priorizar metas internacionais e discursos simbólicos, o governo acaba penalizando o revendedor de combustíveis, que vive uma realidade muito distante das conferências e debates globais.
Enquanto se fala em reduzir emissões e acelerar o uso de energias limpas, os postos enfrentam aumento de custos, novas exigências regulatórias e uma carga tributária sufocante, sem qualquer contrapartida proporcional.
O resultado é um cenário em que o setor, responsável por garantir o abastecimento e o transporte em todo o país, se vê pressionado por regras e custos que colocam em risco sua sustentabilidade financeira.
A retórica de urgência climática, se não for acompanhada de políticas equilibradas, pode marginalizar um setor essencial, que emprega milhões de brasileiros e garante o funcionamento logístico de praticamente toda a economia.
O revendedor de combustíveis está no epicentro de uma transição energética que ainda carece de infraestrutura, incentivos e planejamento realista. Enquanto as grandes metas são anunciadas, quem sente o peso imediato das decisões é o empresário que mantém o posto aberto todos os dias, lidando com margens cada vez menores, fiscalizações crescentes e uma concorrência cada vez mais acirrada.
Se o governo realmente deseja avançar em sustentabilidade, precisa reconhecer o papel estratégico dos postos na cadeia energética e criar condições reais de adaptação e não apenas transferir responsabilidades.
A crítica de Marina Silva à “falta de vontade política” ignora um fato importante: o Brasil já é referência mundial em biocombustíveis, e são os postos de revenda que tornam isso possível no dia a dia.
Tratar o setor de combustíveis apenas como vilão é um erro estratégico que ameaça investimentos, encarece o abastecimento e prejudica a geração de empregos.
O país só alcançará uma transição energética equilibrada se valorizar os agentes que já contribuem para isso e o revendedor é um deles.
É hora de reforçar que o mercado de combustíveis não é inimigo da sustentabilidade, ele é parte indispensável da transição. O caminho precisa ser o diálogo e a busca por políticas ambientais que também valorizem quem mantém o país rodando.
Sem o revendedor, não há mobilidade, não há logística, e não há economia verde possível.
A “ferida” da crise climática apontada por Marina Silva é real, mas o tratamento proposto não pode matar o paciente.
O setor de combustíveis é parte da solução e precisa ser ouvido, respeitado e incluído nas decisões que definirão o futuro da energia no Brasil.
