A escalada da crise Irã-EUA atingiu um novo patamar de tensão e volatilidade no mercado global de energia. Nesta semana, o preço do barril de petróleo Brent disparou 1,6%, atingindo US$ 110,85 na segunda-feira (6/4). A alta foi uma resposta direta às ameaças proferidas pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de atacar severamente a infraestrutura civil iraniana caso o vital Estreito de Ormuz não seja reaberto, estabelecendo um ultimato para terça-feira, 7 de abril.
Como você sabe, o cenário de instabilidade no Oriente Médio tem se agravado desde 28 de fevereiro, quando a guerra entre EUA/Israel e Irã teve início. Essa tensão crônica, agora intensificada, coloca em xeque a estabilidade de uma das regiões mais críticas para o fornecimento global de energia. O Estreito de Ormuz, uma via marítima de importância estratégica inquestionável, é o epicentro dessa preocupação.
Responsável pela passagem de aproximadamente 20% do petróleo mundial e um terço do comércio global de fertilizantes, qualquer interrupção ou ameaça de fechamento pelo Irã atua como um gatilho instantâneo para a volatilidade nos preços do petróleo Brent. Essa dinâmica se reflete diretamente no mercado de combustíveis global. Historicamente, cerca de 3 mil navios trafegam pela região mensalmente, um número que tem diminuído drasticamente devido às crescentes ameaças, impactando cadeias de suprimentos e elevando riscos para a navegação comercial.
Para o Brasil, importador líquido de diesel e dependente do mercado internacional para parte de sua demanda de petróleo e derivados, a instabilidade em Ormuz significa custos de aquisição mais elevados e incerteza sobre o repasse desses valores para as bombas dos postos de gasolina e diesel. A cada reajuste do preço do barril, distribuidores e revendedores sentem o impacto diretamente.
Escalada Militar e Retórica Agressiva
A retórica beligerante de Donald Trump no último fim de semana, por meio de postagens em sua rede social Truth Social, sinalizou uma intensificação perigosa do conflito. No domingo (5/4), Trump ameaçou explicitamente: “Terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irã. Não haverá nada igual!!! Abram o maldito Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês viverão no inferno – AGUARDEM! Louvado seja Alá. Presidente DONALD J. TRUMP”.
Ele também afirmou ao The Wall Street Journal que, se o Irã mantiver o estreito fechado, “perderá todas as usinas de energia e todas as outras instalações que possui em todo o país”. A data-limite para a reabertura do Estreito de Ormuz foi estipulada para terça-feira (7/4), às 20h, horário do leste dos EUA, o que corresponde às 21h de terça-feira no horário de Brasília, ou 3h30 da manhã de quarta-feira em Teerã.
Os ataques à infraestrutura iraniana já são uma realidade, indicando que as ameaças não são apenas verbais. Na quinta-feira (2/4), os EUA atacaram uma ponte em construção em Karaj, a oeste de Teerã. No sábado (4/4), Israel atacou uma instalação petroquímica. No domingo, ataques conjuntos de EUA e Israel atingiram o Aeroporto Internacional Qasem Soleimani, no sudoeste do Irã. Em contrapartida, o Irã tem disparado drones e mísseis contra Israel e aliados no Golfo, resultando em quatro feridos em um prédio residencial em Haifa, Israel, e em incêndios em instalações petroquímicas da Borouge em Abu Dhabi, além de danos a instalações de petróleo e petroquímicas no Kuwait e usinas industriais no Bahrein.
Divergências e Reações Internacionais
A postura de Trump, apesar das ameaças veementes, apresentou uma nuance quando ele declarou à Fox News que havia “boa chance” de um acordo ser fechado na segunda-feira, indicando que as partes estariam “negociando agora”. Essa declaração contrasta fortemente com a linguagem agressiva, sugerindo uma possível dualidade na abordagem americana ou uma tentativa de negociação paralela para evitar uma escalada ainda maior.
O Irã, por sua vez, reagiu com desdém e retórica igualmente forte. Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento iraniano, classificou as ações de Trump como “imprudentes” e “arrastando os EUA para um inferno na Terra”, acusando-o de seguir ordens do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. O general Ali Abdollahi Aliabadi, do comando militar central do Irã, chamou a ameaça de “desesperada, nervosa e estúpida”, prometendo que “os portões do inferno se abrirão” para o líder americano.
A comunidade internacional também expressou profunda preocupação. A Anistia Internacional, por meio de sua secretária-geral Agnes Callamard, criticou duramente as ameaças de Trump à infraestrutura civil, advertindo para o sofrimento dos civis iranianos e o “potencial para uma série de crimes de guerra em cascata”. Um grupo de mais de 100 especialistas em direito internacional também manifestou “profunda preocupação” com as graves violações do direito internacional pelos envolvidos no conflito, embora a Casa Branca tenha desconsiderado tais críticas, afirmando que Trump “estava tornando toda a região mais segura”.
Impacto no Setor de Combustíveis Brasileiro
A crise Irã-EUA e a ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz criam uma enorme incerteza para o setor de combustíveis brasileiro. A alta de 1,6% no preço do petróleo Brent para US$ 110,85 é um indicativo de que a volatilidade será a norma nos próximos dias e semanas. Distribuidores e revendedores de combustíveis enfrentarão custos mais elevados de aquisição, com repasses inevitáveis, em maior ou menor grau, para os consumidores finais nas bombas.
As margens de lucro dos postos podem ser seriamente pressionadas se a Petrobras não ajustar rapidamente seus preços internos de acordo com o mercado internacional, ou se houver intervenções governamentais para conter a inflação. A instabilidade afeta diretamente a cadeia de suprimentos, podendo causar atrasos e aumento nos custos logísticos para importação de petróleo ou derivados, impactando a previsibilidade de preços e o planejamento estratégico das empresas do setor.
Para os revendedores, a principal consequência é a necessidade de gerenciar o fluxo de caixa com preços de compra mais voláteis e potencialmente mais altos. Recomenda-se um monitoramento diário e rigoroso das cotações internacionais do petróleo e do câmbio, além de estratégias flexíveis de formação de preços. Há também o risco de queda no consumo devido ao aumento dos preços na bomba, impactando o volume de vendas e o capital de giro. Oportunidades podem surgir para quem conseguir otimizar estoques e custos operacionais em um ambiente de preços ascendentes, buscando eficiência máxima em cada etapa.
Mudanças regulatórias, como subsídios temporários ou alterações na política de paridade de importação (PPI), podem ser consideradas pelo governo brasileiro para mitigar o impacto da inflação mundial no consumidor final, especialmente em um cenário de alta prolongada. Contudo, tais medidas podem ter impactos fiscais e orçamentários significativos. A resiliência da cadeia de suprimentos e a diversificação de fontes continuam sendo temas cruciais para o setor.
